Mais de 16 milhões de pessoas, cerca de 8% da população brasileira, vivem em favelas e comunidades urbanas, distribuídas em 656 municípios. Esses territórios são historicamente marcados pela informalidade, deficiência de serviços públicos essenciais e infraestrutura precária.
Soma-se a isso o alto custo de transporte e o tempo excessivo de deslocamento, que limitam o acesso ao mercado de trabalho formal.
Empreendedorismo nas periferias
Nesse contexto, o empreendedorismo, especialmente o de base coletiva, foco do apoio do BNDES, surge como uma alternativa concreta para a geração de renda e a redução das desigualdades. O fortalecimento de negócios locais:
- contribui para a sustentação econômica desses territórios;
- dinamiza economias comunitárias que comumente recebem menos investimentos públicos e privados; e
- cria oportunidades de trabalho mais próximas da realidade das populações periféricas.
Dessa forma, o BNDES, ao direcionar recursos para esses territórios, atua na correção de desigualdades históricas e promove inclusão produtiva em regiões comumente excluídas do crédito tradicional. Além disso, investimentos em negócios de pequena escala nas periferias têm forte efeito multiplicador. Cada real investido em micro e pequenos empreendimentos comunitários pode gerar impactos proporcionais superiores aos observados em áreas já consolidadas.
Isso ocorre devido à elevada circulação local de renda e à capacidade desses negócios de mobilizar redes comunitárias, gerar empregos e estimular cadeias de valor locais.
Periferias como Polos Econômicos
As periferias urbanas são também polos de soluções criativas e práticas inovadoras em diversos temas, como:
- cultura e economia criativa;
- economia circular;
- gastronomia;
- tecnologia; e
- serviços urbanos.
Muitos coletivos e empreendimentos surgem com modelos de negócio resilientes, baseados em redes de colaboração, uso eficiente de recursos e forte enraizamento territorial.
Projetos em territórios periféricos têm grande potencial de articulação com escolas, equipamentos culturais, organizações comunitárias e programas municipais e estaduais. Ao apoiar essas iniciativas, o BNDES contribui para ampliar a escala de soluções já testadas e alinhadas à agenda de cidades sustentáveis.
Periferias e mudanças climáticas
As favelas sofrem mais os efeitos das mudanças climáticas. Estudo da Teto (2025) destaca que:
- 4 a cada 5 comunidades situam-se a até 100 m de rios, canais ou córregos (vulnerabilidade direta a enchentes, alagamentos e contaminação hídrica);
- 52,9% estão próximas a barrancos, fator associado a riscos de deslizamentos e desmoronamentos;
- 86% das favelas enfrentaram eventos climáticos extremo em 2024;
- 60% são consideradas áreas de risco no caso de tempestades e chuvas;
- 70% das comunidades não possuem abrigos para casos de emergência climática; e
- 60% das favelas não possuem obras de contenção para desastres ambientais.
Desigualdades e Economia do Cuidado
No Brasil, pessoas negras e mulheres são os grupos menos representados nas instâncias de tomada de decisão e mais afetados por todas as dimensões de desigualdade. A falta de condições mínimas de dignidade afeta os mais pobres desde o seu nascimento, e parte expressiva dessa população ainda mora em áreas precárias ou de risco. Além disso, a desigualdade entre regiões e unidades da federação ainda é marcante.
A taxa de desemprego de mulheres (9,5%) é 48% maior que a de homens (6,4%) no país (IBGE, 2023). Em relação ao rendimento médio mensal, os mesmos dados indicam que o dos homens era de R$ 3.252, enquanto o das mulheres atingia R$ 2.386, o que implica uma remuneração feminina cerca de 27% inferior à masculina.
Observa-se desigualdade mais acentuada ao se considerar a interseccionalidade de sexo e raça/cor (CEBRAP e ABCD, 2024). A taxa de desocupação de mulheres negras (11,5%) que é mais que o dobro da taxa de homens não negros (5,2%). E o rendimento médio da mulher negra, de R$ 1.814, corresponde a apenas 43% do rendimento médio do homem não negro, que alcançava R$ 4.248.
Além disso, no Brasil, em 2022 (OIT)
- a incidência de ocupação em tempo parcial foi de 18,6%, para os homens, e de 32,6%, para as mulheres;
- destaca-se, também, que para as pessoas que cuidam, a taxa de ocupação é de 74% para homens e de 47% para mulheres (PNS, 2013).
A demanda por cuidado tem se expandido. Essas tarefas sobrecarregam especialmente as mulheres e ainda mais as mulheres negras e que vivem nas periferias, que precisam executar atividades de cuidado não remunerado, limitando sua autonomia, inserção no mercado de trabalho e bem-estar, por não dispor de recursos para contratar serviços especializados.
Buscando garantir direitos tanto para quem cuida quanto para quem recebe cuidado, a Política Nacional de Cuidados (Lei nº 15.069/2024), define que seus públicos prioritários incluem:
- crianças e adolescentes (em especial a primeira infância);
- pessoas idosas e pessoas com deficiência que necessitem de assistência para atividades básicas; e
- trabalhadoras e trabalhadores do cuidado – remunerados ou não, incluindo as trabalhadoras domésticas – e aqueles que acumulam responsabilidades familiares de cuidado.
O apoio não reembolsável do BNDES às Periferias e coletivos urbanos
Ao atuar em periferias, o Banco amplia seu alcance e se aproxima de públicos historicamente distantes de sua atuação. Quando o BNDES apoia projetos em periferias:
- Cria novas oportunidades e reduz desigualdades;
- Atrai novos agentes econômicos; e
- Reforça seu papel como instituição de desenvolvimento comprometida com transformação estrutural e inclusão produtiva.
Entre as políticas públicas e legislação que orientam a atuação do BNDES no eixo Empreendedorismo e fortalecimento comunitário, destacam-se:
- Programa Periferias Vivas (Decreto nº 12.260/2024); e
- Política Nacional de Cuidados (Lei nº 15.069/2024).
Os nove projetos aprovados até março de 2026 na iniciativa BNDES Periferias têm os seguintes resultados esperados como destaques:
- Mais de 8 microempreendedores capacitados
- 104 favelas beneficiadas
- 3,9 mil empreendedores apoiados com capital semente
- mais de 2,1 mil empreendimentos criados
- 320 empreendimentos que estabeleceram novos canais de comercialização
- 5,2 mil mulheres, 3 mil jovens apoiados e 1,8 mil pessoas pretas e pardas apoiadas
A gestão de resíduos sólidos permanece como um dos grandes desafios ambientais e sociais do Brasil. Atualmente, apenas cerca de 3% dos resíduos secos e 1% dos resíduos orgânicos retornam ao ciclo produtivo, pressionando sistemas de destinação final e ampliando a demanda por novos recursos naturais.
Catadores e suas cooperativas
Ao mesmo tempo, a reciclagem é fonte essencial de renda para aproximadamente 800 mil catadores e catadoras, majoritariamente mulheres, responsáveis por cerca de 90% de todo o material reciclado no país.
Apesar do reconhecimento profissional da atividade e de avanços regulatórios, esses trabalhadores ainda enfrentam condições precárias, pobreza e exclusão social. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) reforça o papel estratégico dos catadores ao integrá-los à responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos.
Muitas dessas pessoas se organizam em cooperativas para melhorar suas condições de trabalho e ampliar sua representatividade. No entanto, essas organizações ainda enfrentam desafios estruturais, como limitações de gestão, infraestrutura e poder de negociação.
Mercado de reciclagem
O mercado da reciclagem é altamente concentrado, com poucos compradores e muitos vendedores, o que reduz a capacidade de barganha das cooperativas. Além disso, a exigência de grandes volumes favorece intermediários que capturam parte significativa do valor gerado.
Por outro lado, a Política Nacional de Resíduos Sólidos e os compromissos climáticos assumidos pelo país fomentam a expansão de mercado, uma vez que indústrias e grandes geradores precisam comprovar metas de logística reversa, elevar índices de reciclagem e reduzir sua pegada ambiental. Nesse contexto, o fortalecimento de redes e coletivos de catadores, o incentivo à geração de créditos de logística reversa e novos modelos de governança surgem como caminhos promissores para fortalecer a atividade e elevar a renda desses trabalhadores.
Investimentos do BNDES em Economia Circular
O investimento do BNDES em Economia Circular contribui para diversos benefícios:
- Diminui a pressão sobre sistemas de gestão de resíduos, incluindo aterros sanitários;
- Reduz emissões de gases de efeito estufa;
- Estimula a reindustrialização sustentável;
- Prolonga a vida útil de matérias-primas críticas, além de apoiar a transição ecológica justa.
Ademais, ao focar em cooperativas de catadoras e catadores, que cumprem função essencial para a sociedade ao formarem a base da reciclagem no Brasil, mas que sofrem com baixa produtividade por falta de investimentos, o BNDES contribui para elevar a produtividade, a renda e a autonomia dessas organizações, reduzindo a concentração do mercado e fortalecendo a economia popular.
Trata-se de um segmento com alto impacto social por real investido, com potencial de se tornar polo local de inovação, emprego e reindustrialização verde, área em que o BNDES busca ampliar sua atuação. Por último, a demanda crescente por investimentos para temas como créditos de logística reversa, rastreabilidade e sistemas de compensação ambiental, derivada da PNRS, faz com que, ao apoiar tecnologias, redes e governança para esses temas, o BNDES contribua para viabilizar as metas nacionais e atender setores produtivos.
Entre as políticas públicas e legislação que orientam a atuação do BNDES no eixo Economia Circular Inclusiva, destacam-se:
- Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)
- Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares)
- Decreto nº 11.413, de 13 de fevereiro de 2023, que institui o Certificado de Crédito de Reciclagem de Logística Reversa, o Certificado de Estruturação e Reciclagem de Embalagens em Geral e o Certificado de Crédito de Massa Futura
- Programa Diogo de Sant'Ana Pró-Catadoras e Catadores para a Reciclagem Popular (Pró-Catador)
- Política Nacional de Logística Reversa (PNLR)
- Plano de Transformação Ecológica (PTE)
- Nova Indústria Brasil (NIB)
Os projetos aprovados de 2023 a março de 2026 desse eixo, relativos à iniciativa Novo Cataforte, têm os seguintes resultados esperados como destaques:
- 790 mil pessoas atendidas pela coleta seletiva
- 15 empreendimentos coletivos aprimorados ou implantados
- 545 pessoas associadas aos empreendimentos coletivos
- Material reciclável processado: + 1 mil toneladas/mês em 1 parceria para catadores