A agricultura familiar é responsável por uma grande parcela dos empregos no campo e sustenta comunidades inteiras. No entanto, muitos agricultores vivem em situação de pobreza, com baixa remuneração e acesso limitado a políticas produtivas. Investir nesse grupo significa ampliar a inclusão produtiva, reduzir desigualdades e fortalecer a economia rural onde ela mais precisa de apoio. Cada real investido na agricultura familiar circula várias vezes dentro do território, ativando comércios locais, cooperativas, agroindústrias e pequenos serviços. Ao apoiar esse segmento, o BNDES promove o desenvolvimento regional, especialmente em áreas historicamente excluídas das dinâmicas econômicas nacionais.
Mudança Climática e Sistemas Alimentares Sustentáveis e Resilientes
A mudança climática já afeta diretamente a produção rural, que está cada vez mais exposta a riscos, como irregularidade de chuvas, secas e desertificação. Esses impactos negativos atingem de forma mais grave os agricultores familiares que não dispõem, de forma regular, de fatores essenciais para a produção, como orientação técnica e financiamento agrícola, inclusive para a aquisição de maquinários para cultivos de menor porte, uma deficiência tecnológica estrutural do país.
Apoiar práticas agroecológicas e tecnologias sociais significa preparar as comunidades rurais para enfrentar secas, erosão, degradação do solo e perda de biodiversidade, fortalecendo a resiliência produtiva e ambiental do país. Sem um apoio consistente à produtividade e resiliência, o acesso a alimentos saudáveis e a preços justos fica comprometido. O BNDES, ao financiar esse segmento, atua diretamente na garantia de abastecimento e na promoção de sistemas alimentares mais equilibrados e resilientes.
Semiárido brasileiro
Os desafios da agricultura familiar são intensos no Nordeste e, sobretudo, no Semiárido brasileiro, uma região marcada por profundas vulnerabilidades sociais e ambientais.
Nessa área, 9,1% da população vive em extrema pobreza e 47,2% em situação de pobreza, índices superiores à média nacional. Além disso, 34,8% dos domicílios enfrentam insegurança alimentar.
Essas dificuldades são agravadas por fatores estruturais, como:
- Baixo nível de mecanização;
- Fragilidade da organização produtiva coletiva; e
- Elevada exposição a riscos ambientais típicos do Semiárido, incluindo desertificação, degradação do solo, escassez de água doce e perda de biodiversidade.
Em conjunto, esses elementos reduzem a capacidade produtiva e adaptativa das comunidades rurais.
Cerrado brasileiro
A agricultura familiar enfrenta dificuldades relevantes no Cerrado, onde vivem 32 milhões de pessoas, incluindo cerca de 80 etnias indígenas e diversas comunidades quilombolas. O bioma teve perda de 28% da cobertura de vegetação nativa de 1985 até 2024. Naquele ano, o Cerrado representou 52,5% de toda a área desmatada no país.
O Cerrado também é conhecido como berço das águas do Brasil, provendo quase metade da água doce do país. Quando se desmata o bioma, comprometem-se também os recursos hídricos, importantes para milhões de pessoas. O Cerrado concentra nascentes de oito das 12 principais bacias hidrográficas do país, e as águas originadas no bioma proporcionam geração de eletricidade para nove de cada 10 brasileiros.
Além do desmatamento, também prejudicam os rios:
- o impacto causado por garimpos, que contaminam as águas com mercúrio e provocam o assoreamento de seus cursos (bloqueio por terra);
- a utilização de agrotóxicos e fertilizantes na monocultura intensiva de grãos; e
- a pecuária extensiva de baixa tecnologia.
O apoio não reembolsável do BNDES à Agricultura Familiar Sustentável e Resiliente
Fortalecer a agricultura familiar em bases sustentáveis é fundamental para:
- ampliar a geração de renda e a estabilidade econômica das famílias agricultoras;
- aumentar a resiliência dos sistemas produtivos frente às mudanças climáticas;
- promover a restauração de ecossistemas degradados;
- fortalecer cooperativas e associações locais;
- estimular maior autonomia tecnológica, especialmente por meio do uso de bioinsumos.
A atuação do BNDES busca promover soluções que integrem inclusão produtiva, desenvolvimento territorial e sustentabilidade ambiental.
Entre as principais políticas públicas e a legislação que orientam a atuação do BNDES no eixo, destacam-se:
- PNMC – Política Nacional sobre Mudança do Clima
- NDC – Contribuição Nacionalmente Determinada
- Plano Nacional para Controle do Desmatamento Ilegal e Recuperação da Vegetação Nativa
- Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima
- Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)
- Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)
- Programa Cisternas
- Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO)
- Programa Nacional de Bioinsumos (PNB)
- Plano Nacional de Fertilizantes
Os 15 projetos aprovados pelo BNDES no período de 2023 a março de 2026 têm como resultados esperados os seguintes destaques:
- 1 milhão de pessoas diretamente beneficiadas em 5 projetos de produção sustentável
- Mais de 400 mil mulheres beneficiadas em 5 projetos de produção sustentável em Agricultura Familiar
- 86 mil pessoas capacitadas para a prática e gestão de atividades econômicas sustentáveis em 5 projetos
- 16,5 mulheres capacitadas para a prática e gestão de atividades econômicas sustentáveis em 5 projetos
- 170 empreendimentos aprimorados em 7 projetos
- 130 empreendimentos com aumento de volume de produção em 5 projetos
- 145 empreendimentos com novos canais de comercialização em 7 projetos
- 84,5 mil ha de florestas manejadas em 5 projetos de produção sustentável
Ao integrar e articular dimensões ambientais, econômicas, sociais e culturais da agricultura, a agroecologia oferece um caminho estratégico para transformar os sistemas agroalimentares.
Essa abordagem ganha relevância como alternativa diante do ainda elevado uso de agrotóxicos no Brasil e é reconhecida internacionalmente por suas contribuições à sustentabilidade em diversas dimensões, que incluem:
- Segurança e soberania alimentar;
- Mitigação e adaptação às mudanças climáticas; e
- Conservação da biodiversidade.
Sua importância se torna ainda mais evidente diante do elevado e crescente uso de agrotóxicos no país. Em 2022, o Brasil foi o maior consumidor mundial desses compostos. Já em 2017, 33% dos estabelecimentos da agricultura familiar faziam uso de agrotóxicos.
Entre 2010 e 2020, as vendas desses produtos cresceram 78,3%, quase três vezes mais que a expansão da área cultivada no mesmo período, refletindo uma tendência preocupante de aumento da dependência química na produção agrícola. Além disso, a base de fertilizantes químicos do País é majoritariamente importada – 90% dos fertilizantes consumidos em 2024 – , o que expõe agricultores a choques cambiais e de preços, comprimindo margens e endividando cadeias locais.
Bioinsumos e o apoio do BNDES
A substituição de fertilizantes químicos por bioinsumos tem impactos positivos tanto sobre a biodiversidade quanto sobre o clima. Em termos de biodiversidade, os bioinsumos revitalizam o solo, melhoram a ciclagem de nutrientes e favorecem inimigos naturais e polinizadores. Em termos climáticos, aumentam a eficiência do nitrogênio, reduzindo perdas e emissões associadas a fertilizantes sintéticos, além de estimular o acúmulo de matéria orgânica no solo. Esses efeitos tendem a ser potencializados em sistemas agrícolas com práticas como rotação de culturas, cobertura vegetal e consórcios, características da agricultura familiar diversificada.
Assim, os bioinsumos surgem como alternativa tecnológica promissora para promover sistemas produtivos mais sustentáveis, saudáveis e resilientes. No entanto, sua produção ainda é concentrada regionalmente: das 403 unidades produtoras existentes no país, apenas 8,3% estão localizadas nas regiões Norte e Nordeste.
Esse cenário revela uma oportunidade estratégica para o BNDES: fortalecer a agroecologia e a inovação sustentável em todo o território nacional, especialmente por meio do apoio à produção e ao uso de bioinsumos pelas cooperativas de agricultores familiares. Ao investir nessa agenda, o Banco contribui para reduzir desigualdades regionais, estimular soluções tecnológicas apropriadas aos territórios e impulsionar uma transição agroalimentar justa e sustentável.
Entre as principais políticas públicas e a legislação que orientam a atuação do BNDES no eixo, destacam-se:
- Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO).
- Programa Nacional de Bioinsumos (PNB).
- Plano Nacional de Fertilizantes.